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BARRACÃO E AVENIDA

Atualizado: 3 de mar.



O Dico e a Gabi trabalham demais. Foram acostumados assim. 

O trabalho ocupa o lugar central numa ética construída a partir de valores religiosos ou morais cultivados há gerações. E fortalecidos por uma lógica de submissão e subalternidade consolidados - estruturalmente mesmo - nos ambientes de carência material. Claro que há ricos trabalhadores, movidos também por ética e princípios, norteados por códigos morais fortes e etc. Isso o Weber já disse lá atrás e a construção da economia norte-americana tenta comprovar na prática desde o início da colonização, bem antes do Weber, aliás. Mas o sangue derramado, especialmente de originários e negros, põe em permanente cheque a moralidade do processo, ainda que haja uma ética. Tudo não muito estranho a nós, tudo muito presente ainda hoje. Digressões.


Falávamos da obsessão de Dico  e Gabi pelo trabalho. Filhos de famílias vizinhas, até onde se pode ser vizinho na zona rural de uma cidade escassamente povoada no caatinga do Rio Grande do Norte, migraram com as famílias pro Rio de Janeiro quando uma das incontáveis e implacáveis secas matou toda a criação de fome e sede. Os pais tinham a convicção de que enquanto os animais aguentassem, eles também aguentariam. Tinham forças para ir buscar água a quilômetros de distância e a palma, que custava a morrer, ajudava a manter viva a crença. 


Quando a palma definhou, as cabras e ovelhas não resistiram, as vacas e bezerros já tinham morrido e restou juntar os pertences e embarcar pra tentar a vida onde houvesse ao menos água. Não aconteceu com a grandiosidade épica de Vidas Secas, do Graciliano. Foi coisa simples. A vida na caatinga era dura, mas não era necesariamente cara. As famílias juntaram os parcos recursos acumulados em épocas menos secas e converteram em passagens, como também fizeram outras famílias da mesma região. Viajaram quase ao mesmo tempo e até já se conheciam, mas só se tornaram próximas de verdade nos apertos a que a favela os submeteu. A visão e convívio permanente com situações de violência, desde a precariedade dos serviços até o domínio do tráfico e as desastradas e fatais intervenções da polícia, fizeram com que ambas as famílias, além da maioria absoluta das outras, temessem muito pela perda de seus filhos menores. 


A desocupação inocente ou a eventual ocupação no tráfico ofereciam quase o mesmo nível de risco. Os pais então optaram por manter as crianças permanentemente ocupadas, o que fortaleceu a cultura do trabalho à exaustão desde cedo. Ainda não tinham feito 8 anos de idade quando começaram a vender doces no entorno de casa. Ambas as mães tinham receitas do nordeste que faziam sucesso na favela. Cocadas e pés de moleque incríveis que as crianças ofereciam como se estivessem brincando, mas que eram elemento central nos orçamentos apertados. Cresceram fazendo aquilo e mostraram competência no ofício, o que acabou ocupando o lugar da escola. Nunca reclamaram e tinham, ambos, a seu favor, uma capacidade inata e reforçada de fazer cálculos de cabeça. O inevitável acabou acontecendo. 


O compartilhamento da vida no mundo do trabalho, a superação das tentações da favela, tanto a possibilidade da Gabi ser “escolhida” por um chefe do tráfico quanto a chance do Dico entrar, ele mesmo, para algum grupo criminoso, enfim, todas essas ocorrências comuns para as vidas dos dois os tornaram inseparáveis. E de papel passado. Casaram-se quando alcançaram a maioridade. Tinham, a partir daí, sua própria casa e suas próprias responsabilidades, ainda que mantivessem a ajuda ao sustento dos pais.


Desde a chegada na favela, a escola de samba despertou a atenção dos dois: aquele som e aquela vibração tinham alguma coisa de especial, de magico, de algo que eles, em sua limitação de conceitos, não conseguiam definir. No entanto, a rigidez dos pais somada ao cansaço pelas sempre excessivas horas de trabalho não permitia distrações e lazer. Só quando casados cruzaram pela primeira vez o portão da quadra. E foi uma epifania!!


Nunca é demais lembrar o efeito de uma bateria sobre as pessoas. Difícil afirmar que seja a vibração grave dos surdos, a conversa aguda dos tamborins ou as ordens dadas pelos repiques enquanto as caixas e taróis mantém o andamento. Podem ser as intervenções cômicas das cuícas ou as harmonias tiradas dos agogôs, os gargalhar dos chocalhos e xequerês. Pode ser qualquer elemento, mas é principalmente o conjunto deles. 


Gabi e Dico ouviam desde crianças, mas nunca tinham sentido tão de perto. Aquilo soou como um sinal de que a vida tinha outras possibilidades. Ainda eram jovens, tinham uma vida toda pela frente. Talvez tivessem filhos,  talvez corressem atrás do tempo perdido sem escola e com a excessiva dedicação ao trabalho, que garantia o básico, mas nunca possibilitou conforto e lazer. 

Olharam-se como nunca antes. Gostaram-se como nunca antes e foram felizes como nunca antes. A vida vale a pena.


A obstinação fez com que em pouco estivessem trabalhando para a escola de samba. São orgulhosos trabalhadores do barracão durante o ano todo e componentes felizes e disciplinados nos ensaios e nos desfiles. Estudam, fazem planos.


De vez em quando alguém lhes chama à atenção porque se dedicam demais, extrapolam o máximo de horas extras, exageram nos detalhes.


Talvez seja o reconhecimento, enviesado, pela tardia descoberta de alguma felicidade. 

Ou só o reflexo do início conturbado da vida e do jeito que aprenderam a viver. Uma ética do trabalho marcada pela dedicação máxima, pela entrega até a exaustão. 


Por sorte há quem lembre que a vida não é só trabalho. Há também quem creia que eles aos poucos vão entender que precisam de férias, de um tempo para eles, de lazer e distrações. A vida deixa marcas fortes.


O Dico e a Gabi, mesmo carnavalescos e mais alegres que antes, ainda trabalham demais.

Alalaô!

 

Rio de Janeiro, março de 2025.


 

Roda de Samba pra Churrasco, playlist na Spotiy / Cedro Rosa.


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