SANTA
- Leo Viana
- 23 de mar.
- 3 min de leitura

A Edwiges era economista. E não havia um dia, desde que escolheu a carreira, lá atrás, aos 17 anos, que não ouvisse ao menos uma piadinha por ser xará da santa padroeira dos pobres e endividados. A mãe, muito católica, fez questão do nome quando a filha nasceu, num 16 de outubro distante, enquanto multidões imploravam graças à Santa na igreja do Bairro Imperial de São Cristovão, no Rio de Janeiro.
Católica de ocasião, a mãe não manteve a devoção após ter conseguido a graça que implorou à Santa durante a gravidez. E a Edwiges nem chegou a fazer primeira comunhão. Apesar do nome, nunca se apegou à Santa da quai era xará. A opção pela economia também não tinha qualquer inspiração na padroeira dos endividados. Ed, como era conhecida, gostava de humanas e de matemática, o que irritava muitos dos colegas de ambos os lados do espectro politico-educacional. Os radicais da esquerda teórica tinham preconceito com ciências exatas e os radicais da direita burra achavam que ciências humanas eram doutrinação marxista. Ela se alinhava ideologicamente aos da esquerda, mas criticava suas ranhetices.
Não conseguia imaginar um mundo em que os de esquerda pensassem a sociologia e a economia enquanto todos os técnicos operacionais seriam de direita. Isso nunca fez sentido pra ela. E fez o curso de economíacom louvor. Não demorou muito pra se empregar em um banco privado, num tempo em quções Estado não contratava ninguém, funcionando na verdade como o próprio lobo do Estado, uma espécie auto cavalo de Tróia, em que os responsáveis pela gestão pública odiavam tanto a coisa pública que queriam destruí-la a partir de suas próprias entranhas.
No bancão, mesmo sem lidar com as grandes corporações, sabia que fazia, por força da atividade, o jogo dos patrões, garantindo ao banco a maior rentabilidade.
Sofria pessoalmente, ainda que tivesse consciência de classe e participasse assiduamente das discussões de sindicatos e associações profissionais. Viu de perto o sofrimento de homens e mulheres que deviam ao banco nas diversas formas de crédito disponíveis. Viu o crescimento do fenômeno das corretoras independentes, grande parte delas praticando a mais descarada agiotagem, que incluía ameaças e associação com milícias e tráfico de drogas, mesmo com a cara de legalidade que as permitia estampar camisas de clubes de futebol ou fazer propaganda diuturnamente na televisão, na internet e onde mais se fizesse possível. Sofria.
Não era religiosa, não era emocionalmente frágil, mas sofria porque era humana. Ao mesmo tempo em que trabalhava pra garantir lucro aos banqueiros e alguma rentabilidade para os aplicadores, aquele mundo de pessoas físicas que tentava multiplicar seus parcos recursos nas carteiras de investimento oferecidas pelo banco, sofria ao ver a quantidade de pessoas que tinha no banco uma espécie de último porto, com ondas fortes, onde era possível algum alívio pro desespero, mas que em geral era só o início de uma tempestade furiosa, que normalmente terminava em sofrimento. Era economista e mesmo quando questionada pelos amigos, fazia questão de dizer que não era assistente social. Queria sim, mudar toda aquela lógica rentista e dissociada da realidade da produção e do consumo final dos mais pobres, mas a partir do conhecimento que tinha.
Sofreu por muitos anos a Edwiges.
A virada em sua vida aconteceu no dia em que o Estado, o poder, a gestão da coisa pública, tudo mudou de comando. Seria preciso fortalecer a máquina pública para atender demandas sociais reprimidas, caminhar no sentido de divisão mais justa darenda, universalizar o acesso à escola, aos serviços de saúde, ao crédito barato. E o governo contratou. E a Edwiges foi pro governo!! Ainda hoje, trabalha pra resolver dívidas dos pobres, nos programas de soluções de pendengas financeiras.
E tem gente que a chama de Padroeira.
Dia desses pensou em comprar um apartamento na Fonseca Teles.
Mas duas Edwiges na mesma rua seria um exagero.
Rio de Janeiro, março de 2025.
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